Metade

Imagem: © Hsin-Yao Tseng (b. 1986, Taipei, Taiwan)
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito mas a outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida mas a outra metade é saudade
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa que resta à um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço mas a outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso mas a outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela  não saiba
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia e a outra metade é canção
E que a minha loucura seja perdoada, pois metade de mim é amor e a outra metade também...


By Oswaldo Montenegro

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