Aquilo que mais sabemos parece desprovido de essencialidade

Aquilo que mais sabemos parece desprovido de essencialidade.
Minha sogra oficial (sim, eu já tive sogra oficial) foi a pessoa que passou pela minha vida que mais sabia cozinhar. Ela era nascida em Cluj, terra em que até vampiro é Conde (o Drácula), e ela repetia, perto de mim, aqueles segredos culinários nobres que, até hoje, não conheci nada que superasse tal gostosidão. Uma mordida num pedaço de bolo feito por ela, carregado de morangos e creme de chocolate gelado, ou num rocambole de nozes, me fez refém de doces do tipo austro-húngaro para a eternidade.

Aquilo que mais sabemos parece desprovido de essencialidade
Quando ela estava perto da morte, por diabetes evidentemente, ela perdeu parte da consciência. E, então, ela me perguntava:
- Martinha, como é que a comida se faz?
E eu respondia:
- Você não lembra?
- Lembro como se cozinha, mas não entendo como a comida se faz.

Aquilo que mais sabemos parece desprovido de essencialidade
Ela estava já em alguma outra dimensão. Queria explicação química ou essencial da transformação dos alimentos. Não bastava ser a melhor das cozinheiras e saber muito sobre essa arte. Ela estava descobrindo, em seus últimos dias, que havia mais, muito mais para se saber.

Aquilo que mais sabemos parece desprovido de essencialidade
Acho que assim somos todos nós. Cheios de conhecimentos e sem essencialidade. Talvez por isso o mundo caminhe por rumos tão aparentemente desconexos. Alguma chave de sensibilidade nos falta. Estamos a esmo, cozinhando, cozinhando... apenas.


Texto de: Marta Aguiar

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2 Comentários Fofos

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