Os invasores de corpos

Os invasores de corpos
Não sei vocês, mas aqui em casa a brincadeira é comum: se eu fizer alguma coisa avessa aos meus hábitos, gostos ou crenças, pode ter certeza de que não sou eu, um alienígena tomou meu corpo. 

Minha filha mais velha e meu marido têm uma senha secreta para ter certeza de que eles são eles mesmos, nem eu a sei. A fantasia é baseada num filme batizado no Brasil como Vampiros de Almas, originalmente Invasion of the Body Snatchers (1956), que teve até agora quatro versões cinematográficas. Como se vê, o tema rende. Vale a pena assistir ao original, um terror meramente psicológico, feito apenas de interpretação dramática, poucos efeitos especiais. Não se sabe de onde vieram, apenas que são alienígenas, que se apossam de nós assim que pegamos no sono. Ao acordar, como saber se a pessoa ainda é ela? 

Eles se apossam de todas as nossas memórias; portanto o sinal combinado não adiantaria, mas falta um detalhe: nenhum sentimento ou emoção restam na pessoa possuída. O olhar do invadido esvazia-se de um jeito muito sutil, somente os muito próximos são capazes de notar. Você já não teve essa sensação? É exatamente isso que acontece quando alguém deixa de nos amar. Os invadidos são uma massa obediente, isenta de compaixão, amor ou conflitos. Eles defendem esse novo estado de espírito alegando que livraram os humanos do que os fazia sofrer. Essa fantasia cai como uma luva para retratar temores que são comuns a todos. 

Duvidamos de quem somos, pois estamos sempre em busca de definir traços que nos garantam uma certa autenticidade. Quando amamos alguém, quer seja no sentido erótico, fraterno ou filial, tendemos a fundir-nos com essa pessoa. A metade da laranja, por exemplo, é uma metáfora que alude a fazer-se um só através do amor. Amar, assim, é despersonalizar- -se. A identificação, através da qual construímos nossa própria personalidade, paradoxalmente também é fundir-se com alguém, incorporar suas partes em nós mesmos. Porém, na contramão disso, para acreditar que vale a pena nossa específica presença no mundo, precisamos das nossas peculiaridades. 

Tudo isso que se perde quando viramos um item genérico da espécie. Mas o argumento dos alienígenas atrai. Aliás, a indústria farmacêutica, assim como as drogas ilícitas e o álcool vivem dessa tentação: a de colocar nossa complexidade para dormir. Tudo o que nos torna especiais vem do mesmo lugar do que nos faz sofrer, até de modo insuportável. Culpas, dependências, ódios, invejas, paixões, empatia, são estados de espírito ricos e eloquentes, mas um fardo para as almas preguiçosas. 

A entrega total, quer seja a uma fé, a um líder, a uma substância ou até a uma vida besta, é uma grande tentação. Os maiores aliados dos invasores de corpos somos nós mesmos. Portanto, tome cuidado: como a proposta dos alienígenas é tentadora e está por todos os lados, um dia, você, eu, sua namorada, seu filho ou sua tia Ester podem ter sido invadidos... Talvez nem seja eu que esteja escrevendo este texto.



DIANA CORSO 
Autora do livro "Tomo Conta do Mundo" – Confissões de uma Psicanalista

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