Sobre a morte e a morte do Prince - by Marta Aguiar

Sobre a morte e a morte do Prince
Eu sempre conto essa mesma história. Certa vez assisti a um filme japonês (que não lembro o nome) em que as pessoas morriam e ficavam presas num estágio intermediário entre vida e morte, espécie de limbo e estúdio fotográfico, ao mesmo tempo, de onde elas não podiam seguir em frente até que escolhessem uma única cena feliz ou importante que haviam experienciado para ser revivida e fotografada. A partir da sensação recuperada da memória, projetada em imagem por meio do pensamento e paralisada na foto, elas nasciam na vida pós-morte. Era daquela acertada ou errada escolha que a vida de cada uma delas continuava.

O Prince se foi repentinamente e, cada vez que alguém que eu gosto morre, esse filme me volta à lembrança e eu fico imaginando se a pessoa foi capaz de escolher uma cena significativa para adentrar no suposto mundo do Eterno. No filme, muitos não conseguiam resgatar algo bom. Pior, tinham em mente o registro de uma futilidade, como ir à Disneylândia (o julgamento não é meu, e sim do filme) ou ficavam impregnados de um sentimento coletivo momentâneo e, assim, renasciam na futilidade ou no lugar-comum, sem nenhuma originalidade, sem nenhuma especialidade que pudesse dar um melhor sentido à vida que, ali, ganhava nova oportunidade de recomeçar. Outros não podiam seguir em frente, vazios que eram na escolha.

Todos nós, assim como aconteceu para o Prince, estamos a um segundo da possibilidade de sermos retirados daqui para outro lugar, para um lugar melhor, pior, ou lugar nenhum. Seja verdade ou não a existência no pós-vida, se a morte subitamente chegar, que tenhamos sido capazes de produzir, mesmo que somente uma única vez, uma maravilhosa "Purple rain" ou um gostoso "Kiss", sem muito recato.

O lugar-comum, que é o lugar de todos e, ao mesmo tempo lugar nenhum, sempre me parece o pior lugar. Estar neste mundo, nesta época, com estas pessoas e não com outras, pode ter sido ou um estado de consciência, ou uma escolha ou uma arbitrariedade. Não importa... até porque não dá para se saber a resposta. Mas daqui pra diante... se o milagre da repetição da vida nos agraciar, que ele decorra, naturalmente, daquilo que ora especialmente fazemos ou fortemente desejamos fazer.

Eu particularmente já escolhi. Que os céus me ouçam e me mantenham na amoralidade (diferente de imoralidade), no não conservadorismo, e principalmente no amor e na dor que trazem o outro para dentro de mim. Amém.


Texto: Marta Aguiar




"Rest in Peace Prince"

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